Os Zés Ninguém

Os Zés Ninguém

Que tal olhar para o futuro? Não precisa ser um futuro longínquo: pode ser um próximo que está batendo à nossa porta.

Sim, bem além da Pandemia.

Temos um presidente que não é lá tudo o que sonhamos (ou que acreditávamos quando nele votamos). Temos uma Câmara de Deputados (e um Senado) forrado de políticos processados, condenados – e que não se sustentariam sem as parlamentares proteções, as tais vergonhosas imunidades.

E temos uma realidade econômica à nossa frente que é maior que tudo isso.

No mês de maio perdemos um milhão de empregos com carteira assinada, muito mais que todos os 850 mil conquistados ao longo de 2019.

No mês de junho, perdemos mais 1.4 milhões de empregos – quase o dobro das vagas geradas em 2019.

Entre desempregados e desalentados (pessoas que desistiram de tentar emprego), chegamos a cifras da ordem de 26 a 27 milhões.  Se incluídos entre os desocupados, pelo método desenvolvido por pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), da USP, a taxa de “desemprego oculto pelo distanciamento social” seria de 26,8%.  Há uma estimativa, do próprio IBGE, de que mais 700 mil pequenas empresas fecharam na pandemia, o que representa uma perda de cerca de 40% dos empregos formais do país. (1)Retomada da economia eleva taxa de desemprego:

https://www.gentedeopiniao.com.br/economia/retomada-da-economia-eleva-taxa-de-desemprego

Dentro desse contingente, temos os Zé Ninguéns. Zé Ninguém é um sujeito que nem documento tem: não tem CPF, não tem conta bancária – e não está em nenhuma base de dados. Estima-se que temos uns 10 milhões de Zé Ninguéns. Não são cidadãos: são párias da sociedade. Moram onde não mora ninguém, não tem água encanada e muito menos esgoto. Não estão em nenhuma estatística oficial. São os invisíveis e os ingovernáveis.

Da população que é bancarizada, pelo menos 30% está inadimplente – ou seja, está com contas atrasadas. Desses 30%, estima-se que metade está superendividada: são pessoas que não conseguem pagar as contas mais simples: água, luz, telefone. Aluguel. Prestação da casa própria. Se pagarem, ficam impossibilitadas de ter o que comer. Se pagarem, vão comprometer a subsistência de seus familiares, ficar sem comer. Simples assim.

Ou seja: temos milhões de pessoas que nem sabem que são cidadãs, nunca tiveram dignidade – e outros vários milhões que não se sentem mais cidadãs, que perderam sua dignidade – e não se sentem mais representadas.

Em paralelo temos Brasília, com gente dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vivendo nababescamente, com salários e privilégios inimagináveis para os não-cidadãos. E uma turba de classe média – que ainda consegue se sustentar – brigando entre si, a favor ou contra o presidente, a favor ou contra a Lava Jato – e outras questões do gênero.

Os Zés Ninguém nem sabem disso. Os desalentados e superendividados sequer vão comparecer nas eleições de 2020: têm mais o que fazer em busca da simples sobrevivência. E os pseudo-intelectuais de plantão continuarão a se digladiar pela internet – enquanto abrem suas geladeiras e se alimentam com facilidade de coisas que os Zés algumas vezes nem sonham.

Fico pensando em coisas simples: se essa energia da briga entre esquerda, direita e centrão fosse usada ao menos para trazer os Zés Ninguém para a cidadania. Não teríamos um mundo melhor?  Ao menos um Brasil melhor?? Ou se os políticos, ao invés de defenderem suas posições de esquerda, direita e centro, se unissem para efetivamente termos um Brasil melhor, não resgataríamos o senso de cidadania de todos que já perderam essa esperança?

Você vota e tem voz. E pode ajudar isso a acontecer.

 

 

Referências   [ + ]